Este post descreve um workflow simples, robusto e repetível para processar imagens astronómicas no Siril a partir de uma câmara OSC (one-shot color).

Não é um fluxo avançado nem otimizado ao limite. É um fluxo pensado para:

  • quem está a começar
  • quem quer resultados consistentes
  • quem quer aprender a controlar o ruído, em vez de tentar corrigi-lo no fim

Este workflow parte do princípio que o Siril já está corretamente instalado e configurado. Se ainda não o fizeste, começa pelo post anterior sobre a instalação e configuração do Siril.

Seguindo os passos pela ordem e com calma, é possível obter imagens equilibradas, com fundo controlado e cores credíveis.


1 — Preparar a pasta de trabalho

Cria uma pasta principal de trabalho e, dentro dela, as seguintes subpastas:

  • lights
  • darks
  • flats
  • biases

Se os ficheiros já existirem noutro disco ou noutra localização, usa symlinks em vez de copiar os dados. Evitas duplicação, poupas espaço e manténs tudo organizado.

Uma estrutura limpa evita erros e facilita todo o processamento.


2 — Escolher a pasta de trabalho no Siril

Abre o Siril e seleciona a pasta principal de trabalho criada:


3 — Preprocessing e stacking (automático)

Executa o script de preprocessing:

  • Scripts → Siril script files → OSC_Preprocessing

Este passo trata automaticamente:

  • calibração (darks, flats e bias)
  • alinhamento das imagens
  • stacking final

Se não tiveres todos os frames de calibração

Escolhe o script mais adequado:

  • OSC_Preprocessing _WithoutDark
  • OSC_Preprocessing _WithoutFlat
  • OSC_Preprocessing _WithoutDBF

Nota importante: menos calibração significa mais ruído. Isto não é uma limitação do Siril, é uma consequência física dos dados.


4 — Abrir a imagem resultante

Abre o ficheiro criado pelo script - Open → result_xxxx.fit

O “xxxx” é o número total de segundos de exposição.

A imagem vai parecer escura, sem contraste e pouco interessante. Está tudo bem. Neste ponto, a imagem ainda está linear.


5 — Display mode: Stretch (visualização)

Muda o modo de visualização para AutoStretch (1).

Se a imagem apresentar dominantes de cor muito fortes, usa Unlink channels (2).

Este stretch é apenas visual. Não altera os dados da imagem.

 


6 — Crop

Desenha um rectângulo sobre a imagem para excluir bordas irregulares ou zonas com stacking incompleto. Tudo o que fica fora desta área só acrescenta ruído e dificulta os passos seguintes.

 Podes arrastar os lados para ajustar ou clicar fora do rectângulo para recomeçar.

Botão direito sobe o rectângulo – Crop – Crop.


7 — Plate solving (astrometria)

Executa o plate solver:

  • Tools → Astrometry → Image Plate Solver

Usa o botão “Get metadata from image” (1). Se os dados ficarem preenchidos, é só fazer “OK”. Se não, procura o DSO em questão (2).

 

Este passo é essencial para a calibração de cor moderna (SPCC).

 

Se falhar, resolve o problema agora, não avances sem isto funcional.

 


8 — Extração do fundo (Background Extraction)

 

Image Processing → Background Extraction

Clica em Generate

Remove amostras colocadas sobre estrelas ou nebulosidade (botão direito)

Adiciona amostras em zonas de fundo limpo (botão esquerdo)

Clica em Compute Background, reajusta as amostras e repete

Quando estiveres satisfeito, clica em Apply

 

Usa poucas amostras, bem colocadas. Um BGE mal feito cria mais problemas do que resolve.


9 — Calibração de cor (SPCC)

Calibra a cor da imagem:

  • Image Processing → Color Calibration → SPCC
  • Escolhe o sensor e o filtro usado

Se o plate solving foi bem sucedido, este passo é direto.

Cores completamente irreais indicam problemas em etapas anteriores


10 — Voltar a linear

Muda novamente o modo de visualização:

  • Display Mode → Linear

A partir daqui, todas as alterações passam a modificar os dados da imagem.


11 — Stretching (onde o ruído se torna visível)

O ruído não aparece neste passo — ele já estava presente nos dados. O stretch apenas o torna visível.

Regra fundamental

Image Processing – Stretches – Asinh Transformation

  • Desloca o Stretch Factor lentamente para a direita, até começares a vislumbrar o objecto principal
  • Este passo tem por finalidade deslocar o histograma para o centro, tornando mais fácil o passo seguinte

Image Processing – Stretches – Histogram Transformation

  • Ajusta primeiro o black point, sem o colar ao sinal
  • Ajusta os midtones muito lentamente
  • Faz Apply e repete o processo até o ponto preto estar quase colado ao sinal.
  • Se não gostares de alguma coisa depois de fazeres Apply, podes fazer undo, inclusive vários passos, e repetir o processo.

Evita movimentos grandes. Pequenos ajustes acumulados dão melhores resultados.

 

Quanto mais agressivo for o stretch, mais ruído vais ver.

Image Processing – Stretches – Curves Transformation

  • Clicando na linha diagonal, acrescentas pontos de controlo. Cria um ponto perto do fundo e outro perto do centro. Puxa o ponto inferior ligeiramente para baixo e o superior ligeiramente para cima. Observa o resultado. Aplica ajustes suaves na curva, em forma de S.
  • Evita inclinações excessivas

É preferível fazer vários passos pequenos do que um único stretch agressivo.


13 — Retoques finais

Faz apenas pequenos ajustes:

  • Se a imagem tiver uma tonalidade verde, Image Processing – Remove Green Noise e faz Apply
  • contraste
  • saturação moderada
  • correções subtis de cor

Se sentires necessidade de correções pesadas, o problema está em passos anteriores do workflow.


14 — Guardar a imagem

Guarda o resultado final:

  • TIFF para edição externa (Photoshop, GIMP, etc.)
  • JPEG para publicação

Guarda sempre uma versão intermédia. Vais querer voltar atrás mais tarde.


Ideia-chave para iniciantes

Uma boa imagem não é a mais esticada.

É a que mantém sinal limpo, fundo controlado e cores credíveis, mesmo que isso signifique deixar detalhe fraco por mostrar.

Quando sentires que estás a lutar contra o ruído, o mais provável é estares a pedir mais à imagem do que os dados realmente permitem.